
O Pavilhão Multiusos dos Remédios, na cidade da Lagoa, na ilha de São Miguel, transforma-se no epicentro da cultura popular açoriana entre os dias 6 e 8 de fevereiro, reunindo cantadores de renome e gastronomia regional numa edição que assinala as duas décadas do evento.
O lugar dos Remédios, na freguesia de Santa Cruz, prepara-se para acolher a 20.ª edição do Festival de Cantorias ao Desafio, uma iniciativa da Associação Cultural e Recreativa dos Remédios. Este marco comemorativo de vinte anos de existência volta a elevar a arte do improviso, contando com um cartaz que inclui vozes como Eduardo Papoula, vindo dos Estados Unidos da América, José Eliseu e Roberto Toledo, da ilha Terceira, Bruno Oliveira, de São Jorge, e os anfitriões de São Miguel, Bruno Botelho e Paulo Miranda. A mestria das rimas será acompanhada pelos acordes dos tocadores Fernando Silva, Marco Silva, Renato Cordeiro e Toni Silva, garantindo a autenticidade musical que caracteriza este certame ao longo dos três dias de programação.
Para além do palco, o festival afirma-se como um ponto de encontro gastronómico, oferecendo aos visitantes a oportunidade de degustar iguarias típicas em diversas barracas de comida tradicional, com destaque para as sopas, torresmos, inhames, morcela, chouriço e carne guisada, sem esquecer os doces regionais como as malassadas e o arroz-doce.
A celebração arranca na sexta-feira, dia 6 de fevereiro, pelas 19h30, com a abertura oficial na presença de autoridades locais, seguida pela atuação do grupo Doce Sinfonia às 20h00 e o início das cantorias às 21h00. No sábado, o programa abre às 20h00 com o cantor Nuno Martins, dando lugar aos desafios uma hora depois. O encerramento, no domingo, dia 8, segue o mesmo figurino, iniciando-se com a voz de Mafalda Borges Medeiros antes do último grande momento dedicado ao improviso.

A Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira, na cidade da Lagoa, em São Miguel, recebe, no próximo dia 5 de fevereiro, pelas 15h30, um encontro com a autora Paula de Sousa Lima, numa sessão centrada na sua obra «Os Velhos». Segundo uma nota de imprensa enviada às redações pela Câmara Municipal, a iniciativa conta com o apoio da Editora Letras Lavadas e destina-se a um público intergeracional, bem como ao público em geral.
Este encontro constitui uma oportunidade para leitores de diferentes gerações dialogarem com a autora sobre a sua obra e o seu percurso literário, num espaço de partilha e reflexão em torno da literatura contemporânea portuguesa. Natural de Lisboa e filha de pais açorianos, Paula de Sousa Lima reside no arquipélago açoriano desde os seis anos, sendo licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e mestre em Literatura Portuguesa.
A autora mantém, desde há vários anos, uma colaboração assídua na imprensa regional, com crónicas e artigos sobre literatura, colaborando regularmente com o jornal Açoriano Oriental. É autora de sete romances, entre os quais «O Paraíso» (finalista do Prémio LeYa), e três livros de contos, destacando-se «O Outro Lado do Mundo», vencedor do Prémio Daniel de Sá.
Dinamizadora de cursos de escrita criativa, Paula de Sousa Lima tem muitas das suas obras integradas na lista de leituras recomendadas pelo Plano Regional de Leitura, reforçando o impacto do seu trabalho na promoção da cultura e da língua portuguesa na região.

A Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Ponta Delgada, acolheu a apresentação do livro “Palavras da Palavra”, da autoria do padre Norberto Brum, no passado domingo, 25 de janeiro. A obra nasce da compilação de vários anos de editoriais publicados na rubrica “Afectos” do Diário dos Açores, num projeto que agora ganha uma nova vida em formato de livro com cerca de 500 páginas. Para fechar o ciclo litúrgico, o sacerdote, natural de Vila Franca do Campo, preparou textos inéditos, assegurando que todos os domingos e festas tivessem o seu devido espaço de reflexão.
A obra distingue-se pela sua forte ligação à comunidade, contando com ilustrações das crianças da Casa do Gaiato de São Miguel, instituição que o autor preside. Durante o lançamento, o padre Norberto Brum fez questão de clarificar o propósito da publicação, afirmando que se tratam de “reflexões simples sobre a Palavra de Deus, não são estudos teológicos”. Segundo o pároco, o objetivo principal passa por “tocar a realidade do nosso tempo, ajudar-nos a mergulhar na Palavra e oferecer, em cada domingo, um ponto de reflexão e de referência”.
Embora o conteúdo tenha tido origem num suplemento dedicado à juventude, o autor sublinha que o livro é transversal a todas as gerações. A intenção, como reforçou o sacerdote, é “desmistificar e simplificar a Palavra, tornando-a próxima e acessível a todos: jovens, adultos, pessoas com mais ou menos formação”. O lançamento foi deliberadamente agendado para o Domingo da Palavra de Deus, uma vez que, para Norberto Brum, “o mais importante não é dar visibilidade ao livro, mas à própria Palavra de Deus”, servindo estas páginas como um caminho para conduzir os leitores ao Evangelho.
O evento, que encerrou com um ambiente de festa, oração e música, coincidiu ainda com o fim de semana dedicado à unidade dos cristãos. O pároco da igreja mais jovem de Ponta Delgada concluiu a sessão lembrando que o protagonismo da obra pertence à mensagem e não ao escritor: “O objetivo não sou eu, nem o autor, mas aquilo que se escreve e aquilo para onde a Palavra nos leva”.

Micaela Pimentel
Revi recentemente Moulin Rouge. Não por nostalgia, mas porque há filmes que pedem para ser revistos quando já não somos a mesma pessoa. À primeira vista, continua a ser o mesmo excesso: cores vibrantes, música alta, amores intensos e promessas grandiosas. Mas, desta vez, o que mais me ficou não foi o romance. Foi tudo o resto.
Moulin Rouge fala de amor, sim, mas fala sobretudo de quem pode amar livremente e de quem paga um preço por isso.
Satine é apresentada como estrela, desejo, fantasia. Mas rapidamente percebemos que, apesar do brilho, não lhe pertence quase nada: nem o corpo, nem o futuro, nem as escolhas. O amor, para ela, é um risco. Um luxo que não pode verdadeiramente permitir-se. Christian, pelo contrário, pode amar de forma idealista, pura, quase ingénua. Não porque ama mais, mas porque pode.
E é aqui que o filme deixa de ser apenas um musical e se transforma numa crítica social subtil, mas contundente. Nem todos amam em pé de igualdade. Nem todos sofrem com a mesma rede de proteção. A romantização da pobreza, do sacrifício e da dor torna-se bonita no ecrã, mas desconfortável quando pensamos nela fora da ficção.
Talvez por isso choremos tanto com este tipo de histórias. A ficção permite-nos sentir empatia sem responsabilidade. Sabemos que a tragédia termina com os créditos. Na vida real, não há música a subir no momento certo nem aplausos no fim do sofrimento.
Há histórias de amor, de perda e de luta que não cabem em duas horas de filme. Pessoas que não tiveram escolha, que nunca tiveram margem para errar, que vivem constantemente no limite entre sobreviver e desistir. Não há glamour nisso. Não há figurinos exuberantes nem frases memoráveis. Há cansaço. Há silêncio. Há dignidade ferida.
A arte ajuda-nos a reconhecer emoções, mas também pode anestesiar-nos se ficarmos apenas no conforto da história bem contada. Moulin Rouge lembra-nos que por trás da estética existe desigualdade e que o amor, esse sentimento que gostamos de pensar como universal, é profundamente condicionado pelo contexto social.
A música do filme insiste que “the greatest thing you’ll ever learn is just to love and be loved in return” (A coisa mais importante que alguma vez aprenderás é simplesmente amar e ser amado de volta). Talvez seja verdade. Mas talvez seja igualmente importante reconhecer que, para alguns, amar é um ato de coragem extrema, enquanto para outros é apenas uma possibilidade natural.
Rever Moulin Rouge foi, para mim, menos sobre romance e mais sobre empatia. Sobre perceber que nem todas as histórias podem acabar bem. E que a nossa sensibilidade não deve ficar reservada às personagens fictícias que nos comovem no sofá, mas estender-se às pessoas reais que vivem sem banda sonora, sem aplausos e sem garantias de final feliz.
Talvez a verdadeira crítica social comece aí: em não desligarmos a empatia quando o filme acaba.